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Carta Aberta aos Dirigentes Políticos

Senhores dirigentes políticos. Escreve-vos um simpatizante por tudo o que se relaciona com política. Está-me no sangue, não sei bem porquê, mas desconfio que isso aconteça devido a um conjunto de experiências pessoais, a que chamo formas de participação cívica, tão diversas quanto enriquecedoras, que mantive num passado próximo e às quais pretendo manter-me ligado. Todavia, desde há algum tempo, ando preocupado com a política e os políticos. Apesar de não ser ninguém em especial, sinto ser minha obrigação partilhar alguma dessa preocupação convosco. Não é nada que já não tenhais ouvido antes. Infelizmente, é mais do mesmo, mas cada vez mais actual.

A política, hoje, não motiva. Falta-lhe perfume e é incapaz de convocar as pessoas. Num estudo de opinião recente a que tive acesso, elaborado pela Eurosondagem para o Jornal Expresso, constatei, uma vez mais, aquilo que todos sabemos mas que de vez em quando alguns preferem ignorar.

Para metade dos portugueses na faixa dos trinta anos, política é um assunto que nunca interessa. Mais. Dos entrevistados, quase 20 por cento não vota e 25 por cento fá-lo apenas às vezes. E, apesar das pessoas auscultadas admitirem que ainda lêem os programas eleitorais dos partidos, mais de 50 por cento nunca assistiram a uma iniciativa política e perto de 80 por cento nunca pensaram em filiar-se num partido.

Vamos por partes. Em vez de atribuir toda a responsabilidade aos partidos, por uma questão de justiça, atribuamos também a algumas pessoas, de uma forma geral, um comprometimento por essa passividade. É sempre possível e desejável assumir o esforço de todos aqueles que lutaram pela possibilidade de votarmos de uma forma livre e respeitar esse legado. A democracia começa e acaba em todos nós.

Mas voltemos aos partidos. Entendo que estes são, em primeira instância, os que precisam mais de seduzir. E, para isso, têm que mudar. Numa altura em que discutimos o próprio futuro da participação das pessoas, não sabemos muito bem como ir à procura do seu envolvimento.

Os exemplos não têm sido os melhores. Infelizmente, não é raro vermos o pior da política quando vemos ou ouvimos a comunicação social. E, mesmo que não aceite a teoria de que os políticos são todos vilões e por isso todos iguais, ultimamente, não conseguimos ver muitos a conseguir sobressair de uma certa mediania, observação que se torna confrangedora.

Senhores dirigentes políticos. Não quero culpados. Quero apenas consequências e atitudes porque entendo que estamos a atingir limites que impõem decisões. Vós, que têm responsabilidades nos dias de hoje, sois obrigados a reinventar as formas de participação política. Sem querer ser acintoso, permitam-me um desabafo dirigido a quem se quiser assumir.

Em vez de andarem tão obcecados com a pequena política, em vez de se ocuparem tantas vezes com os problemas do vosso umbigo, está na altura de olharem para as pessoas das vossas ruas e interrogarem-se porque é que elas já não aparecem. Isto parece uma espécie de pergunta. Mas é seguramente muito mais do que isso. É o princípio de uma profunda reflexão.

Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal do Algarve 07.02.2008

Jornal do Algarve

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