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Um Desafio

Por norma, no início de cada ano, fazem-se votos, pedem-se desejos e lançam-se desafios. É assim. É algo que já se encaixa nas malhas da tradição.

O ano que agora começa é igual a tantos outros. Nasce num berço assolado por um conjunto de problemas que o marcará de uma forma vincada. Não se trata do fim do mundo, creio. Mas, em bom rigor, estamos perante um conjunto de desafios interessantes, todavia, complicados e decisivos.

Poderia, aqui e agora, escrever sobre o problema do ambiente que está na moda, de uma forma justa e inteligente, diga-se. Poderia inclusive, abordar a questão do desemprego, tão importante e que me levará brevemente a tecer mais considerações sobre o assunto. Talvez não ficasse mal, por outro lado, voltar a insistir sobre a sinistralidade rodoviária com um balanço negativo face ao período homólogo de 2006. Ou até, sem contemplações, escrever sobre o avanço sorrateiro da propagação do HIV, ao abrigo de algum descanso relativo às campanhas de sensibilização principalmente junto dos mais novos, embora as mesmas estivessem de regresso (pelo menos no Algarve) neste fim de ano.

E o arrefecimento da economia? Não mereceria umas quantas palavras? Muitas, definitivamente.

Todos estes desafios seriam motivos para desenvolver um conjunto de opiniões. Mas deixá-las-ei para mais tarde porque quero ir noutra direcção.

Há dois meses, baseado em dados que pude recolher, escrevi uma crónica intitulada "A Nova Pobreza". Nessa ocasião, escrevi que "os novos pobres dos dias de hoje vão juntar-se fatalmente aos pobres que já existem. Nesta soma infeliz cabem, desde há algum tempo, todas as famílias atingidas pelo desemprego e endividamento, o que as leva a não conseguirem cumprir as suas obrigações. Tal como li numa reportagem recente sobre o assunto, publicada na comunicação social nacional, "a chamada classe média, esganada pelos créditos ou apanhada nas malhas do desemprego crescente, constitui uma nova forma de pobreza". Isto é dramático. Significa que as pessoas podem ter um emprego, mas podem não estar acima do limiar da pobreza, pois segundo os números disponíveis pela Rede Europeia, 14% dos portugueses já são o melhor (ou pior) exemplo desta constatação."

Esta é, para mim, a minha maior preocupação para 2008. Com isto não quero, de forma alguma, minimizar a importância das outras. Seria insensato e profundamente errado. Mas o desafio de, com tempo, porque ainda é possível fazer parar a espiral da nova pobreza, minimizar o sofrimento de muitas famílias, parece-me urgente e ponderado. Mais. Não olhar agora para este problema, com dimensões já mensuráveis, é adiar uma questão que se irá multiplicar e terá inevitavelmente um conjunto de danos colaterais que serão catastróficos. Nesta matéria, ninguém está seguro. A nova pobreza poderá bater à minha porta ou também à sua. E isto queira-se ou não, dá-nos que pensar.

Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal do Algarve 10.01.2008

Jornal do Algarve

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