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As Primeiras Palavras

Escrevo estas palavras ainda em 2007, em virtude da preparação atempada desta edição. Daí que, em princípio, quando alguém as ler, já estará no novo ano, tendo vivido já a transição para 2008.

Salvo algo de profundamente transcendental, creio que no espaço de uma semana, ninguém terá sentido grandes alterações. Todavia, isto de ser adivinho tem muito que se lhe diga…

Há previsões e previsões. Sei que não conseguirei adivinhar concretamente o que se passará no novo ano. Não tenho poderes para tal. Mas, qualquer um de nós conseguirá prever que, o âmago de muitos problemas com que nos deparamos todos os dias, tem tendência para se manter ou para se agravar.

Tento ser optimista porque acho que o devemos ser sempre. Mas há alturas na vida em que nos inquietamos mais um pouco e que vergamos a um conjunto de apreensões que nos enchem o espírito.

Falo do mundo, essa cidade grande em que vivemos, que maltratamos todos os dias, mas em que paradoxalmente depositamos a fé na nossa própria sobrevivência. Refiro-me, de uma forma frontal, à maneira como não encaramos os problemas desta "casa", preferindo atribuir sempre a culpa do que acontece aos "vizinhos". Mas falo também da nossa aldeia, que é Portugal. E aí tenho uma mágoa elevada ao quadrado.

O desemprego, a insegurança, a pobreza encapotada, as reportagens que frequentemente são emitidas sobre vidas com que nos cruzamos todos os dias mas cuja miséria fingimos não ver, a economia que não permite tantas oportunidades como seria desejável, o raio do spread que não pára de aumentar, os autênticos assassínios que se estão a fazer às estruturas organizativas de centenas de empresas públicas e privadas ou a desmotivação com que os portugueses abordam tantos temas importantes para si, tudo isto me inquieta.

Gostava de ter soluções. E, sem me contradizer, creio que elas aparecerão ou não fôssemos uma terra de gente que ultrapassa as suas adversidades sempre com uma esperança inconfundível. Sinto, todavia, mesmo sem querer atirar a toalha ao chão, que as pessoas andam cada vez mais tristes, devido à imensidão de problemas e à pressão que eles exercem.

Ainda agora saímos da passagem de ano. Como reza a tradição, por certo, à meia-noite, todos pedimos muitos desejos de coisas boas. Mas quantos de nós acreditam mesmo que tais coisas se irão concretizar? Ou coloquemos a questão de maneira diferente. Quantos de nós se conseguirão colocar a jeito para que essas coisas possam mesmo acontecer?

Desculpem o excesso de idealismo aparente, mas também há um conjunto enorme de coisas, talvez pequenas coisas, que possamos mudar. E essas pequenas mudanças serão sempre responsáveis por grandes mudanças. Falta acreditar mais. Ora aí está. Este é, sem dúvida, um dos meus maiores votos para o ano de 2008. Mesmo perante a crise e a falta de motivação. Mesmo perante tantas adversidades.

Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal "Região-Sul" 09.01.2008

Jornal 'Região Sul'

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