Mais Vale Cair em Graça do que ser Engraçado
Ao longo da minha vida, principalmente enquanto desempenhei funções de autarca, procurei, por opção própria, ser tão acutilante quanto sensato e tão frontal quanto correcto. Foi assim que pautei o meu comportamento.
Isto não se aprende em lado algum. É intrínseco desde que começamos a ganhar a nossa própria consciência, já com alguns anos de vida passados e muito por culpa dos erros que cometemos e pela capacidade que temos de retirar ilações dos mesmos. Contam e muito, nessa altura, os princípios e valores que nos foram transmitidos na educação dada pelos nossos pais.
Tão simples quanto isto. Por mais que em determinados momentos tenhamos acesso a um palco, onde podemos dizer o que pensamos, onde podemos criticar ou elogiar quem queremos, se não houver a capacidade de nos colocarmos ao abrigo da insensatez, se não soubermos ganhar um estatuto que nos permita falar com algum domínio, não somos mais do que simples marionetas, instrumentos de um espectáculo que não agradará a ninguém, a não ser ao nosso próprio ego.
Há que distinguir o que queremos. E isso, vê-se particularmente na vida pública porque somos avaliados pelo que dizemos e fazemos, seja por quem apoia as nossas convicções mas também pelos outros, que não sendo inimigos, são apenas seres humanos que defendem outros pontos de vista.
Infelizmente, há quem não reconheça isto e viva permanentemente em sobressalto, talvez pela procura de um mediatismo excessivo, fazendo com que valha tudo e ultrapassando muitas vezes a fronteira da própria educação e elegância. É preciso explicar a esses maus aprendizes que a política não é uma guerra, ou pelo menos, não deveria ser. Mais. Não vale a pena ser-se quezilento, ora porque isso pode ser mais engraçado ou porque traz uma satisfação interior sem sentido. Ao subverter as regras do jogo político, alimentando as façanhas em nome de uma liberdade que todos temos, se não soubermos ser coerentes nos actos que praticamos, apenas se perde a razão.
Lembrei-me disto, no outro dia, ao ser confrontado com uns comentários públicos deselegantes e vis, pronunciados ao abrigo de uma cobardia de quem bate e sabe que não vai ouvir o contraditório, o que apenas reforça as poucas qualidades da pessoa em causa. Se é certo que todos temos o direito de criticar e ser criticados, princípio basilar da democracia, não reconheci no acto boa educação, nem ao orador qualquer estatuto para o poder fazer.
Quem me conhece sabe muito bem aquilo que fui e o que sou hoje. Não me desviei um único milímetro daquilo que defino como os meus princípios e valores. Antes procurei enriquecê-los com novas experiências, que não mexendo uma vírgula com o essencial da minha consciência, têm proporcionado aqui e acolá novas aprendizagens e até, noutros casos, a confirmação de algumas teorias que há muito vinha defendendo. São escolhas. E como tal, devido à minha maioridade, só a mim me dizem respeito.
Ao ter colocado uma pausa na minha experiência de autarca, fazendo-o com a consciência de quem abraçou novos desafios profissionais, moralmente incompatíveis com as funções de autarca, não deixei de ser quem era. Apenas passei a distinguir melhor quem me cumprimenta quando passa por mim.
Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal do Algarve 20.12.2007
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