E Se Um Dia…
Habituámo-nos a sentar em frente ao mar para descansar e contemplar a paisagem. Há qualquer coisa que nos faz aproximar desse azul. É assim com centenas de milhares de pessoas. Fazemos de conta que é um amigo, por vezes calmo, por vezes revolto, e temos a certeza que dentro da sua imensidão há uma história com milhares de anos por contar.
O mar tem um fascínio. Essa mesma emoção que nos faz sentir bem e querer estar ao junto da sua beira, é tentadora mas leva-nos a certos abusos que não se compadecem com esse sentimento terno que muitos dizem nutrir.
Coleccionamos desde há muito tempo um conjunto de erros que têm transformado o mar num caixote do lixo, basta consultar os estudos sobre a poluição que por lá grassa, e, ao mesmo tempo, invadimos o seu território de uma forma desordenada, inconsistente e não planeada.
Basta percorrer a costa, nomeadamente a algarvia, para percebermos que só uma paixão doentia poderá ter motivado tantos atentados ao mar.
Quisemo-lo conquistar de uma forma moderna. Desta vez, em vez dos barcos que cruzaram oceanos em busca do mundo novo, construímos sem rigor, delimitámos a sua área a nosso belo prazer sem saber se isso deveria ser feito e quisemos, tal trunfo que só os homens vaidosamente gostam de apresentar, domesticar algo que nãos e compadece de tamanha ousadia.
Hoje olhamos com preocupação para o seu avanço e para a natural reocupação dos seus territórios. Mesmo assim ainda tentamos sempre deixar o nosso cunho, avalizando situações de recurso que são temporárias e muitas vezes ineficazes.
Esta tem sido a nossa sina. Ir a reboque do mar. Agora, segundo dizem os entendidos nesta questão, quem manda é aquela mesma massa de água que muitos gostam de contemplar.
Resta-nos, por assim dizer, tentar acalmá-lo e diminuir todos os prejuízos que aqui e acolá vai causando.
Há alguns dias atrás, num jantar convívio, organizado pelo Vialgarve, com o Professor Alveirinho Dias, reputado conhecedor destas matérias, lembrei-me de lhe perguntar o óbvio na ânsia de uma resposta que não poderia ser diferente daquela que me foi dada.
- Será mesmo verdade Professor que todas as previsões do avanço das águas são correctas? Não haverá um alarmismo supérfluo?
Talvez na minha indignação por tantas pessoas com responsabilidade ainda não terem percebido isto, confirmei a resposta que muitos, com maiores responsabilidades, já deveriam ter interiorizado.
- É verdade, e se nada se fizer haverá um conjunto de problemas muito complicados, disse-me. Aí parei um pouco. Andamos todos loucos? Andamos todos, à boa maneira portuguesa, à espera que aconteça uma catástrofe para actuarmos?
Para alguns parece…
Nuno Silva
Técnico de Recursos Humanos
Jornal "Região-Sul" 27.06.2007
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