Ano novo, vida nova
As pequenas histórias de vidas destruídas, tristes contos sem rosto, tornam este Natal e a Passagem de Ano iguais a qualquer outro ano: continuam a morrer demasiadas pessoas na estrada. Com uma estatística mais ou menos favorável, a história repete-se!
Esta é igualmente pródiga em reflexões e contemplações. Juras de que será diferente para o ano. Que será fatalmente igual, presa aos mandos e desmandos da sociedade que nos impõe - que impomos - a dádiva, mas que não serve sequer para propiciar a paz que procuramos.
Quem é que nunca prometeu algo que sabia não poder cumprir? A pior desonestidade é esta. Connosco. Mentimos e sabemos que o estamos a fazer. Nada mudará, não mudamos assim. Essa é a grande constante da vida. Pedir que tudo mude, sem fazermos nada por isso. Esta quadra de redenção é, afinal, a nossa própria visão, paternalista, daquilo que queremos ver mudado. Faltando-nos, no entanto, reunir o esforço final de o concretizar.
É também uma época de família, das histórias que se repetem, que se aprofundam, que se partilham. Ou de histórias novas, de tempos que foram e não voltarão. Esta é, para mim, a grande magia do Natal. Podemos fazê-lo em qualquer outra altura, mas esta é mais confortável para este efeito. Também trabalhamos para que seja semelhante ao ano anterior. Isto, a que alguns chamam "tradição", é a almofada confortável que procuramos em muitas coisas. A familiaridade da quadra ainda é o seu coração.
Muitas tradições vão caindo. Da tradição bem portuguesa do "menino Jesus" (de que pessoalmente não sou contemporâneo), passamos ao bonacheirão Pai Natal, vestido pela Coca-Cola. Aos pratos mais tradicionais, fomos introduzindo evoluções gastronómicas, algumas de fusão, que permitem mudar a forma e a textura de alguns pratos e doces, sem no entanto abandonar os ingredientes que sempre nos acompanharam.
Deixamos também de enviar os cartões manuscritos de outrora, ou pelo menos reduzimos o seu número. Hoje enviamos 945 milhões de SMS em 4 dias!?!? Nem sei o que dizer. Este ano recusei-me a enviar SMS, limitando-me a responder a alguns, mas fiquei um pouco chocado com o número das mensagens escritas que circularam. O e-mail também tem vindo a substituir o papel. São evoluções, não necessariamente más, que, sem querer, sem sentir, vamos abraçando, facilitando-nos a vida.
Esta quadra contribui ainda para o aumento do endividamento das famílias, ou pelo menos da redução da poupança. Muitas vezes colocando em causa uma boa parte do ano seguinte, apenas porque a pressão e os facilitadores de consumo estão no seu expoente máximo.
Também se come mais do que necessitamos! Aumentamos o colesterol, os triglicéridos, ingerimos mais sal e tudo aquilo que sabe bem e faz mal, quando em excesso. São só dois dias, pensamos. E que bem que nos sabe cada um dos dois ou três quilos que ganhamos nesta semana!?! Valha-nos isso.
Jorge Lami Leal
Coordenador/ técnico
Jornal do Algarve - 03.01.2008
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