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Portugal Desencantado

A vida não está fácil.

Fazendo uma breve análise da situação do País neste final de ano verificamos que a economia não arranca, a descrença está instalada e, pior do que tudo, não vemos luz no fundo do túnel…porque alguém se esqueceu de pagar a conta da electricidade!

Os funcionários públicos e equivalentes perdem poder de compra há 5 ou 6 anos consecutivos e têm os escalões congelados há mais de 2 anos, a Euribor (taxa de referência para os empréstimos à habitação) está no seu valor mais alto dos últimos 5 anos aumentando brutalmente as mensalidades a pagar aos bancos, a gasolina e o gasóleo não param de aumentar (sabendo-se que entre 60 e 65% do custo final são impostos), os tipos do Banco Central Europeu têm todos os objectivos possíveis e imaginários menos aliviar o Zé Povinho, o imposto sobre o tabaco aumenta ano após ano sem que se veja qualquer resultado no combate ao tabagismo com estes extras arrecadados, a taxa de desemprego atingiu um valor histórico (dados do INE 3º Trimestre 2007), agora paga-se uma diária nos hospitais quando se é operado (se a pessoa opta por ser operada em vez de ir passar férias ao México tem lógica que pague!!!), há uns anos diziam para irmos aos SAP's para não encher as urgências dos Hospitais, agora fecham os SAP's mais cedo e mandam-nos para as urgências dos Hospitais, uma lei obrigou os bancos a utilizarem taxas de juro à milésima, mas permitiu que todos cobrem comissões por amortizações antecipadas (dá-se com uma mão, tira-se com a outra…), o Prof. Charrua não pode dizer piadas e no Centro de Saúde de Vieira do Minho devem-se retirar rapidamente cartazes mordazes, para se obter uma reforma por incapacidade é obrigatório não ter pés, braços, ser cego de um olho e padecer de 5 cancros diferentes, a barragem de Odelouca vai ser paga com o dinheiro a mais que vamos pagar na conta da água, na factura da água pagamos a utilização de esgotos em proporção do consumo de água que fazemos (se regar o jardim utilizo muito o esgoto?), mas posso encher o contentor do lixo com toneladas de porcaria que pagarei sempre o mesmo, a produtividade do País não aumenta e ninguém é culpado (os poucos títulos do Benfica devem ser uma das razões… deveria ser feito um livro branco sobre o assunto!), a comunicação social domina a actividade política e os partidos políticos apanham os restos, a circular a Faro nunca mais arranca, basta chover 15 minutos em força e Faro transforma-se na Veneza algarvia (é só um pormenor, a malta curte mesmo é iluminação de Natal!), os moedinhas continuam na rua a sacarem-nos o que podem apesar de não poderem (a próxima actividade parasitária deverá ser a venda de lugares para consultas nos Centros de Saúde!), no ar sente-se um cheiro peculiar dos objectos húmidos não arejados, o Fisco esmaga os fracos por ninharias e belisca os fortes por grandes fraudes, o clima de insegurança aumentou (com ou sem base estatística), as greves e a contestação popular têm assumido dimensões alarmantes, a regionalização passou repentinamente para segundo plano, alguns autarcas querem aumentar os impostos municipais e depois gastam milhares em iluminações natalícias dispensáveis, nalgumas autarquias não se sabe de onde vem tanto dinheiro, a redução do défice orçamental é feita principalmente a partir do aumento das receitas e não do corte nas despesas e … penso que ainda tinha alguma coisa a acrescentar sobre a iluminação de Natal em Faro mas agora não me lembro…fica para o ano!

Nunca tinha feito um parágrafo tão grande! Ainda pensei em fazê-lo sem qualquer pontuação, tipo Saramago, mas pensei que ficaria uma sopa de letras gigante…

Se virem por aí o responsável pelo túnel, indiquem-lhe a loja da EDP mais próxima!

Boas Festas e até para o ano!

João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 03.01.2008

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