O Nosso Litoral
O principal produto de que o Algarve dispõe em termos turísticos é, sem qualquer dúvida, e continuará certamente a ser nos próximos anos, o chamado "sol e praia". Se o sol parece estar menos amigável mas a querer permanecer muitas horas por ano na região, no que concerne à praia a resolução do problema, ou pelo menos, uma estratégia de limitação de danos está nas nossas mãos.
Foram estas questões à volta do litoral, da nossa bela costa e da problemática erosão costeira que foram debatidas no último jantar-debate "Algarve à Mesa" que o grupo vialgarve organizou e que contou com a presença do reputado especialista e professor da Univ. Algarve Alveirinho Dias.
A utilização crescente das praias nos últimos quarenta anos, a construção de barragens e algumas enormidades criadas pelo Homem parecem-nos ser as principais causas de uma erosão costeira galopante que nos "acorda" de tempos em tempos.
A crescente utilização das zonas costeiras provoca uma natural erosão. A continuação do modelo de "sol e praia" massificado, direccionado para o chamado "turista de pé descalço", pouco valor acrescentado deixa na região e, provavelmente, nem compensa os custos que provocam.
Sobre as barragens pouco há a dizer. São necessárias.
As enormidades criadas pelo ser humano na região algarvia davam para fazer um romance, com prefácio de Miguel Sousa Tavares e introdução de Clara Ferreira Alves!!!
Agora mais a sério, os erros de ordenamento cometidos na zona litoral do Algarve nos últimos trinta anos têm um preço a pagar. E este preço assemelha-se aos novos créditos à habitação: são para ser pagos até ao final da nossa vida!
A Ilha de Faro que continua cheia de casas e de carros, sem qualquer projecto de mudança que se veja, parecendo ser necessário que aconteça uma "Costa da Caparica" para que alguém faça alguma coisa. Segundo julgo saber, as regras estabelecidas no momento de cedência de algumas áreas à autarquia nunca foram cumpridas… Com tanto senhor importante com casa na Ilha de Faro e com tantas pessoas a terem um parque de campismo quase privativo, a motivação política para mudar deverá ser muito pouca…
A Ria Formosa que dispõe de espécies única, é o sustento de muitas famílias e que começa a despertar a sério como ponto de interesse turístico tem sido mal tratada e corre o risco de ficar numa situação ainda pior.
Vale do Lobo que ciclicamente tem necessidade de repor areia na costa para que nenhuma casa construída no último cm de arriba disponível venha abaixo.
Quarteira, Armação de Pêra e Praia da Rocha devem ser os melhores exemplos, no mau sentido, da pressão exercida sobre a costa, de como a massificação retira interesse ao que é belo e de que ainda existe muito mau gosto neste País…
E todos conhecemos exemplos de como duas espécies de seres humanos (poderosos e "Chico Espertos") conseguem ter casas em zonas que todos pensávamos ser impossível…
A gestão integrada de todo o litoral, do norte ao sul, parece ser a melhor resposta disponível para minimizar os danos. Não tem sentido repartir a costa Portuguesa como quem divide um bolo, pois as soluções têm que ser globais e não parcelares. Fazer uma reposição de areia num sítio chave poderá ser mais eficaz do que cada Concelho andar a fazer a sua reposição, a qual no ano seguinte, provavelmente, já estará no Concelho limítrofe…
E mais, está na altura do Estado (e alguns privados, porque não?) começarem a investir a sério na gestão da nossa costa. E não apenas na reposição de areias. Se existem zonas onde as construções prejudicam claramente o futuro desses locais, porque razão o Estado não as expropria, pagando a respectiva indemnização como pessoa de bem que é. Sai caro, não é? Mas em tudo há que tomar opções, dada a escassez dos recursos. Agora pense bem nos dinheiros públicos mal aplicados que conhece e… se calhar neste caso teriam uma melhor aplicação…
O panorama não é brilhante para o nosso litoral. Os erros cometidos foram muitos e parece não haver vontade política (um projecto, recursos, etc) para mudar o estado das coisas.
Estaremos condenados à criação do turismo "sol e calhaus"?
João Nuno C. Arroja Neves
Economista
Jornal do Algarve 21.06.2007
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